No mês da Consciência Negra, homenagem póstuma ao jovem Bruno Alves dos Santos

Bruno, com o jornal A Voz das Favelas - reprodução

Estudante da Uerj morto em acidente de trem tinha militância voltava para a justiça social e o fim dos preconceitos e simboliza a resistência na universidade

IMPRENSA SINDSCOPE

Mês da Consciência Negra, em novembro de 2017 completam dois meses da morte do estudante Bruno Alves dos Santos, que militava nos movimentos socais, estudantil, sociais e das periferias do Rio de Janeiro.

Os servidores do Colégio Pedro II, presentes em assembleia realizada pelo Sindscope, aprovaram nota de solidariedade e homenagem ao rapaz, que pode ser visto como símbolo da resistência da Uerj e da educação pública.

Na mobilização permanente da comunidade universitária em defesa da Uerj, que sofre com os mais graves cortes orçamentários de sua história, o caráter inclusivo e popular da instituição é sempre destacado.

É nesse contexto que se dá a homenagem que estudantes que integram o movimento que ocupou o restaurante universitário fizeram a Bruno, mosto aos 34 anos, batizando-o com o nome do colega, morto pouco tempo depois do início da ocupação da qual participava, atropelado por um trem na Estação do Maracanã, quando tentava retornar à sua casa.

‘Uerj Resiste’

Negro, morador de favela, cotista, Bruno cursava o sexto período de História da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Como os demais estudantes cotistas, Bruno estava sem receber o pagamento da assistência estudantil, um dos aspectos centrais da política de inclusão por meio de cotas raciais e sociais para permanência dos discentes na universidade.

Para as autoridades, o corte nos recursos desta e de outras áreas das instituições estaduais de ensino é decorrente da crise e da recessão econômica. Para os movimentos em defesa da universidade, trata-se não de reflexos da crise, mas consequência de uma política fiscal que prioriza o subsídio às grandes empresas privadas, em detrimento dos serviços públicos e sociais, e de uma gestão corrupta – que teve na recente e breve prisão dos deputados Jorge Picciani, Edson Albertassi e Paulo Melo, e imediatamente posterior revogação da decisão judicial pela Assembleia Legislativa, o seu mais recente episódio.

Sem dinheiro para pagar a passagem, Bruno morreu atropelado por um trem quando teria caído ao se desequilibrar ao cruzar a linha férrea para chegar à estação sem passar pelas roletas. O falecimento prematuro do jovem comoveu boa parte da comunidade acadêmica da Uerj.

O professor Dario Sousa e Silva, da Seção Sindical dos docentes na universidade (Asduerj), em entrevista à imprensa, disse que o que ocorreu foi uma tragédia muito próxima de tudo que se passa hoje na Uerj, no estado e no país. “Acho muito significativo porque o Bruno tem o perfil inclusivo que essa universidade procura ter. Era um símbolo do investimento que a Uerj tem com o povo do Rio de Janeiro. E era o símbolo da democracia que a Uerj investe. Mais do que recursos, mais do que dinheiro, é importante a gente falar de propostas, da proposta inclusiva da uerj que vem sendo mais do que negligenciada, ela vem sendo atacada. E eu temo muito por políticos que tenham outra prioridade do que uma inclusão - comentou o representante da Associação dos Docentes da Uerj Dario Sousa e Silva.

Voz das Favelas

Bruno também se dedicava ao jornal “A Voz das Favelas”, iniciativa que busca dar visibilidade e informação às periferias e contribuir para a organização popular. “Bruno era o mais antigo distribuidor do jornal e um grande militante das causas sociais. (...). Sentimos um orgulho imenso de ter feito parte de sua bonita trajetória e de mais este jovem negro e periférico ter se dedicado por anos às causas de seus irmãos”, disse a Agência de Notícias das Favelas e o “A Voz da Favela.

O pedagogo Bruno Miranda Neves, que estudou com ele, disse, em comentário nas redes sociais, que Bruno Alves “construía pontes”. “Muitas coisas são usadas para dividir as classes subalternas. Quando nós estudávamos no João Alfredo até o gosto musical servia a esta finalidade. O Bruno foi um dos caras que ajudou a construir pontes entre os estudantes dos três turnos; pagodeiros, funkeiros e roqueiros; heterossexuais e homossexuais etc. Aprendi com ele e com a também saudosa Thais Pires a construir pontes. Sigamos com esta missão!
Bruno, presente!”, disse.

O estudante da Uerj Eleomar Nepomuceno também expressou a sua tristeza com o que ocorrera. “Esse vai fazer muita falta, muita falta. Estudante, militante, poeta, preto, compositor, traquilo, ativista. Porra ... Só de ver os comentários meu coração já dói (...). Vai fazer muita falta esse preto”, disse.

A nota de pesar aprovada na assembleia dos servidores do Colégio Pedro II se soma às homenagens póstumas ao jovem militante Bruno Alves dos Santos, dedicado à busca da justiça social e ao fim de toda forma de preconceito e discriminação.

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