Governo aprova reforma Administrativa na Comissão de Justiça na Câmara sob o bordão da moralidade, enquanto é acusado de manter privilégios com proposta que pode levar ao desmonte dos serviços públicos e abrir caminho para apadrinhamentos e corrupção; luta dos servidores para barrar PEC-32 agora será na comissão especial. Mobilização e atos do dia 29 contra Bolsonaro estão na pauta da assembleia do Sindscope
IMPRENSA SINDSCOPE
Poucos deputados favoráveis à ‘reforma’ Administrativa se inscreveram para defendê-la nas quase 14 horas de duas sessões dedicadas à discussão da matéria, antes de sua admissibilidade ser votada e aprovada na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania da Câmara. Foram apenas 12, menos da metade dos que explicaram verbalmente por que votariam pela rejeição da proposta e número inferior a um terço dos 39 votos que aprovaram a admissibilidade, contra 26 contrários.
Durante as discussões, essa carência de oradores favoráveis à reforma que o presidente Jair Bolsonaro quer ver aprovada no Congresso Nacional foi lembrada por um parlamentar da oposição, que a atribuiu à impopularidade da proposta. Poucos pareciam querer ver os seus nomes associados ao que estava sendo aprovado ali, na tarde da terça-feira, 25 de maio de 2021.
É possível que tenha contribuído para isso o ‘constrangimento’ de votar a reforma apresentada sob argumentos da moralização e modernização dos serviços públicos três semanas após o governo de Jair Bolsonaro publicar ato administrativo que elevou as remunerações do próprio presidente a mais de R$ 41 mil e do vice, general Hamilton Mourão, a R$ 63 mil, dois dos vários outros oficiais da reserva com cargos no governo também beneficiados. A canetada que elevou em até 69% essas remunerações foi dada em meio ao congelamento dos salários dos quase 12 milhões de servidores públicos municipais, estaduais e federais do país.
A contradição entre a retórica e a prática foi assinalada na sessão da CCJ por parlamentares da oposição, que mencionaram a portaria do Ministério da Economia que permitiu às remunerações destas autoridades extrapolar o teto constitucional. Nas justificativas da PEC-32/2020, constam os objetivos de acabar com supostos privilégios e redimensionar as carreiras do funcionalismo, rebaixando as faixas salariais iniciais.
Relator
Antes de iniciado o processo de votação, o relator defendeu a aprovação da matéria e voltou a dizer não ser contra os servidores públicos, demonstrando certo incômodo com as críticas que vem recebendo e o caracterizam como um inimigo dos serviços públicos. Poucos dias antes, Darci foi alvo de um tuitaço no qual teve seu nome colado à hashtag ‘traidor do Brasil’ por seu papel na reforma pretendida por Bolsonaro.
O deputado citou as três supressões que fez no texto: do item que permitia ao chefe do Executivo criar, fundir ou extinguir fundações e autarquias; dos novos princípios para a administração pública, entre eles o da subsidiariedade; e da proibição de ocupantes de carreiras exclusivas de Estado terem outra forma de remuneração. O mais relevante, porém, foi a ênfase com que admitiu que outras mudanças terão que ser discutidas e negociadas na comissão especial a ser instalada para analisar o mérito da proposta.
Afirmando que segue acreditando que a proposição não atinge quem já está nos serviços públicos, Darci de Matos disse asusmir um compromisso, junto com o deputado Arthur Lira (PP-AL), presidente da Câmara, de remover na comissão especial qualquer item do texto que possa afetar “direitos adquiridos” dos atuais servidores.
Ao reconhecer que alterações são necessárias, mencionou o caso da substituição do estágio probatório pelo período de experiência, como parte ainda do concurso público. Disse que isso era inaceitável para carreiras exclusivas de Estado – citando delegados e auditores como exemplos. A presidente da CCJ, Bia Kicis (PSL-DF), também falou em ‘aperfeiçoamentos’ e mesmo opções políticas do parlamento quanto ao conteúdo do projeto na próxima comissão.
Oposição
Deputados contrários à reforma afirmaram que o texto não mexe com os verdadeiros privilegiados e levará ao desmonte dos serviços públicos, caso seja aprovado, prejudicando à população e mais pesadamente os mais pobres.
O recente aumento nos contracheques obtido pela alta cúpula militar do governo também foi alvo de críticas e associado ao projeto que os bolsonaristas pretendem para a administração pública. “O presidente Bolsonaro aumentou o seu salário, o do general Braga Neto [Defesa], general Heleno [Segurança Institucional], general Ramos [Casa Civil], e do general Mourão [Vice-Presidência]… estão recebendo 41 mil, 62 mil, 63 mil, 66 mil e 63 mil”, disse o deputado Paulo Teixeira (PT-SP), ao apresentar a indicação de voto da Minoria.
Ao indicar o voto contrário da legenda, o deputado Ivan Valente (PSOL-SP) também fez referência ao duplo teto e disse que o ministro Paulo Guedes, da Economia, mentiu quando foi na comissão defender a proposta. “[Ele disse aqui] que vai economizar 300 a 400 bilhões [com a reforma], é mentira, não há documento nenhum que diga isso. Ele vai gastar mais, é a PEC do privilégio, [do governo] que cria privilégios através de portarias, para o presidente e os ministros militares. Nós vamos derrotar essa PEC na comissão especial”, afirmou.
Protestos
No chat da transmissão da sessão pela TV Câmara no Youtube, centenas de mensagens, ou provavelmente milhares, comentavam a proposta do governo, a imensa maioria críticas à PEC-32. “Nenhuma reforma melhorou o nosso país! As reformas até agora massacraram o povo! Parem de mentir, deputados! PEC 32 Não!”, dizia uma delas.
O acesso presencial à Câmara dos Deputados está restrito em decorrência da pandemia da covid-19, que na véspera da votação ultrapassou as 450 mil mortes no Brasil, segundo dados oficiais. Também por isso, poucas manifestações de rua têm sido convocadas pelos sindicatos e movimentos que defendem os serviços públicos. É nas redes sociais que a rejeição à reforma mais tem se expressado. Mas essa luta deverá ser levada às ruas nas manifestações chamadas para o próximo sábado, dia 29, sob a bandeira “Fora Bolsonaro e Mourão” – convocadas com alertas para a adoção de todos os cuidados sanitários possíveis. Esta mobilização e a luta contra a ‘reforma’ Administrativa são pontos de pauta da assembleia que o Sindscope realiza nesta quarta-feira (26), a partir das 17h30, por videoconferência.
Disputa
O resultado favorável ao governo na CCJ já era esperado. Porém, não foi possível ao Palácio do Planalto, até agora pelo menos, acionar o ‘trator’ que marcou a aprovação sumária de outras matérias, como a PEC Emergencial, que congelou salários de servidores e teve uma fulminante passagem de 72 horas pela Câmara.
A ênfase nas promessas de mudanças no conteúdo do texto mais adiante, tendo o relator como porta-voz da mensagem governista, pode estar distante de mudanças na essência da proposta, apontada pelos sindicatos como um enorme passo para a destruição dos serviços públicos. Mas indica que o governo ainda negocia apoio.
O ‘trator’ bolsonarista já assinalado neste texto revela que essa busca pode se dar por variados métodos – este substantivo sublinhado deu origem ao termo ‘tratoraço’, relacionado à recente denúncia de compra de apoio de parlamentares pelo governo, sendo que boa parte teria se dado com emendas orçamentárias paralelas para a aquisição de tratores com indícios de superfaturamento.
Neste campo adverso aos servidores e aos serviços públicos, é possível observar que há obstáculos no caminho das bancadas majoritárias que apoiam o projeto do governo. O que torna possível calcular que as linhas que podem redesenhar os serviços públicos na Constituição Federal ainda não estão definidas. Seguem em disputa, apesar do placar aparentemente folgado na CCJ.
IMPRENSA SINDSCOPE
Por Hélcio Lourenço Filho
Rio de Janeiro, 26 de maio de 2021, quarta-feira
