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No Faixa Livre, diretor do Sindscope defende fim da impunidade de quem promove a violência contra educadores

Diretor do Sindscope e professor do CPII, Matheus Castro deu entrevista ao programa Faixa Livre. Falou sobre as declarações de Eduardo Bolsonaro comparando professores e professoras a traficantes de drogas e outros temas que perpassam este debate. Link para assistir na íntegra e trechos da entrevista em texto estão disponíveis.

IMPRENSA SINDSCOPE

O professor do Colégio Pedro II, campus Duque de Caxias, e diretor do Sindscope Matheus Castro participou do Faixa Livre, combativo programa radiofônico, atualmente disponível no Youtube e em plataformas de podcast. Na pauta, os ataques frequentes e violentos desferidos pela extrema-direita contra educadores no Brasil. Num dos mais recentes, o deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) compara docentes a traficantes de drogas. Disse o filho de Jair Bolsonaro:– Não tem diferença de um professor doutrinador para um traficante de drogas que tenta sequestrar os nossos filhos para o mundo do crime. Talvez o professor doutrinador seja pior – disse o parlamentar no 4º Encontro Nacional do Proarmas pela Liberdade, ocorrido no dia 9 de julho de 2023, em Brasília.

O professor Matheus Castro aborda ainda outros casos de violência contra os docentes, a necessidade de a esquerda pautar a agenda dos debates e da mídia e sair da posição de retroalimentador e publicizador das fakes news e dos discursos de ódio produzidos pelo bolsonarismo, entre outros temas. Abaixo, trechos da entrevista de Matheus ao jornalista Anderson Gomes, no Faixa Livre, e o link para ouvi-la na íntegra.

Comparando professores a traficantes de drogas“

A primeira reação, obviamente, é de absoluto repúdio a essa declaração, embora a gente não possa dizer que está surpreso. A gente sabe que o modus operandi do bolsonarismo, enquanto uma síntese da extrema-direita brasileira, é a mobilização permanente de suas bases. E essa fala, obviamente, vem no sentido de resgatar toda aquela histeria do Escola Sem Partido. E atacar os trabalhadores e as trabalhadoras da educação por meio desse processo de mobilização, de acirramento em uma conjuntura em que as instituições educacionais mal se recuperaram do processo que foi gerado durante a pandemia, pelo afastamento necessário e pelo tratamento criminoso que a família Bolsonaro e seus cúmplices e suas cúmplices deram durante o processo da administração da pandemia no nosso país. Esse tipo de comparação é uma comparação que já vinha acontecendo no próprio Escola Sem Partido. A gente já foi comparado, enquanto trabalhadores e trabalhadoras da educação, por essas mesmas pessoas a estupradores. A gente sofre diuturnamente com esse tipo de assédio moral, político e ideológico. E a gente tem que se perguntar onde é que está de fato a doutrinação. A doutrinação ela realmente se encontra nas escolas ou se elas se encontram em outros espaços que fazem esse processo de distorção da realidade. No Colégio Pedro II nós sofremos bastante com esse processo de difamação e que a gente precisa se organizar para reagir e responder à altura. Não tem como um parlamentar que faça uma declaração pública dessas, um chamado público à violência contra trabalhadores e trabalhadoras da educação, possa continuar com seu mandato impunemente. Isso tem que ter o tratamento devido e não tem como dar outro tratamento que não seja a cassação de Eduardo Bolsonaro.”

Justiça e impunidade

“Não adianta a gente confiar na Justiça burguesa para fazer o papel que nos cabe. Porque é a mesma Justiça burguesa que endossou o golpe, que permitiu que as pessoas falassem o que falaram ao longo desse tempo todo e nada foi feito. É a mesma Justiça burguesa que, no mínimo, é conivente com uma administração pandêmica que ocasionou, quase que de maneira proposital, a morte de mais 700 mil pessoas, apenas no número que é comprovado. […] Nós professores e professoras fomos chamados de estupradores de crianças e nada aconteceu. É muito difícil que essa Justiça venha, por si só, dar uma ação. Mas por mais que a gente saiba que essa Justiça seja de fato burguesa, que o campo do direito seja um campo que atenda às necessidades do capital e o Eduardo Bolsonaro, a família Bolsonaro nada mais é do que uma representação mais exaltada desse capital, mais reacionária, mas ainda assim é uma representante do capital, a gente sabe que, por si só, a tendência é que nada ocorra, por mais que haja uma ação louvável do ministro Flávio Dino.”

Pressão popular

“A gente sabe que a Justiça também se move por pressão popular, então é fundamental que o conjunto de trabalhadores e trabalhadoras da educação, os movimentos estudantis, os movimentos sociais possam se articular e possam exigir e, diga-se de passagem, estamos muito atrás do que deveríamos estar. A gente já deveria estar pedindo a prisão de Bolsonaro, no caso o Bolsonaro pai, há bastante tempo. E não estamos pedindo, o movimento com a palavra de ordem ‘Sem Anistia’ não deveria ter ficado no vácuo, deveria ter se tornado uma constante dos nossos atos políticos e, infelizmente, não se tornou. E ao não se tornar, a gente abre espaço para que esse tipo de coisas continue a ser dita.”

Estímulo à violência

Esse é o modus operandi da extrema direita. A gente viu bem durante o governo Bolsonaro: fala-se atrocidades e se estimula a violência. Quando a violência acontece, diz que não teve culpa, que não foi bem assim, que o responsável é o indivíduo que cometeu o ato, e nunca quem incentivou e criou as condições para que essa violência se generalizar. Mais do que nunca a gente tem que retomar os atos contra a anistia para os golpistas, pela punição e prisão de Bolsonaro.Animosidade e desconfiança‘Há um clima permanente de animosidade e, antes da animosidade, há um clima de desconfiança. E isso é o que de pior pode existir num ambiente educacional. Que é você estar sempre com um pé atrás: o professor desconfia que o aluno, porque o aluno vai gravar, vai fazer, vai atuar. E por sua vez o aluno ou a aluna desconfia do professor e da professora. Será que esse professor, essa professora está tentando fazer a minha cabeça? […] É um clima de animosidade permanente, uma tensão permanente no ambiente escolar. Obviamente, essa tensão transborda muitas vezes e chega no ponto das agressões físicas, como nós estamos vendo. Mas quando essas agressões não chegam a ocorrer, cria-se um clima de tensão muito grande.

Conversão de pais e alunos em ‘consumidores’”

E um elemento fundamental desse clima de tensão não é só com a questão de uma ideologia reacionária, conservadora. A gente não pode deixar de associar essa tensão, que ocorre na educação, do processo que se consolidou do neoliberalismo, quando converte as pessoas em consumidoras e tudo se torna alvo de consumo. Se eu estou consumindo, independente daquilo que eu esteja consumindo… posso consumir tanto um celular, quanto eu posso consumir a educação. E quando a educação se torna mercadoria a ser consumida, o cliente tem sempre razão. E aí você perde a lógica e o sentido da produção social da educação, daqueles laços, e se torna uma relação entre cliente e vendedor de serviços, ainda que seja no espaço público. E nessa relação em que o cliente tem que ter a razão, o consumidor, a consumidora tem que ter a razão, você tem que se esforçar para vender esse serviço, se você não fizer aquilo que o cliente ou que a cliente quer que seja feito, aquilo dali gera margem para um tipo de ação violenta.”

Escola como mercadoria

Além de contar com toda essa perseguição ideológica, desse processo conservador, reacionário, racista, capacitista, machista, LGBT+fóbico, além disso, a gente ainda lida com essa relação de clientela e de consumo que individualiza, que faz com que os sujeitos se tornem ainda mais agressivos, ainda mais violentos, que sejam incapazes de lidar com o contraditório, porque se eu estou consumindo tenho que consumir aquilo que eu quero consumir. E se você enquanto docente ou outra trabalhadora ou trabalhador da educação apresenta um outro paradigma, outra perspectiva, você está atentando contra o direito de consumo dessa pessoa. Por trás ainda dessa corrente ideológica reacionária, tem um outro elemento fundamental: que é a sociabilidade capitalista que é agravada nesse período neoliberal. Não tem como analisar esse período de violência sem a gente enfatizar esse aspecto que é a conversão da escola numa mercadoria.

Pautar a agenda e não retroalimentar o bolsonarismo

“Analisando a esquerda como um todo, sobretudo as suas correntes majoritárias, a gente observa que a gente está sempre numa posição de reação ou de negação dos problemas. E a gente não tem uma agenda própria, quando a gente não possui uma agenda própria o que nos resta é reagir. Então, obviamente, isso se articula à incapacidade de pautar o debate, quanto à nossa própria inabilidade de lidar com esses mecanismos das redes sociais, da economia da atenção. Então você junta essas duas coisas e o resultado prático das nossas ações é retroalimentar e, infelizmente, fazer o jogo que essa galera quer”. Reagir com um grande movimento e nossas pautas”Não é que a gente não deva agir. Mas como a gente deve agir, reagir diante disso. Teria que ser um grande movimento, teria que ser um grande movimento contra a anistia, a favor da prisão, mas também não é ficar divulgando as imagens dele falando, porque isso vai radicalizando e vai aumentando o engajamento junto às suas bases. A gente poderia estar avançando no conteúdo da lei de regulação das Bigtechs, inclusive que ganham muito dinheiro com essas falas. A gente infelizmente caiu no esquecimento e a própria esquerda não encampou esse processo como pauta central. A gente sabe que são as Bigtechs, que é o conjunto de redes sociais, que lucram com engajamento promovido pela extrema direita. São atores fundamentais desse processo de radicalização. Assim, a gente teria pautas a apresentar e teria lutas a fazer e infelizmente nós não fazemos da maneira devida e nós ficamos reagindo e ao reagir a gente retroage né, a gente retroalimenta o engajamento e a gente faz aquilo que eles contam que a gente vai fazer.”

Íntegra da entrevista: http://www.programafaixalivre.com.br/noticias/sindscope-parlamentar-que-chama-violencia-nao-pode-seguir-impune-2/

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