Veja nota do Grupo de Trabalho Mulheres do Sindscope sobre o recente caso de violência contra uma jovem estudante e o enfrentamento aos assédios e às discriminações no Colégio Pedro II.
IMPRENSA SINDSCOPE
O Grupo de Trabalho Mulheres do Sindscope divulgou nota na qual repudia “as violências de gênero que ocorrem dentro e fora do espaço escolar” e reafirma o compromisso com a construção de um espaço educativo de acolhimento e segurança para enfrentá-las.
“Em pleno 2026, ainda estamos redigindo notas como esta porque a sociedade e a escola negligenciam as violências que sofremos cotidianamente”, afirma o texto.
Diante de mais um grave caso no qual o Colégio Pedro II está diretamente envolvido, o texto reafirma a defesa do respeito pela Reitoria às deliberações do Conselho Superior, que aprovou um plano de acolhimento e enfrentamento aos assédios. O assunto será tema de pauta da sessão do Consup marcada para a quarta-feira, dia 4 de março de 2026, no prédio da Reitoria, em São Cristóvão. O GT Mulheres do Sindscope convida o conjunto da comunidade escolar a acompanhar a reunião.
A seguir, veja a íntegra da nota do GT Mulheres:
Sobre o grave caso de violência de gênero envolvendo estudantes do CPII
O GT Mulheres do Sindscope vem a público, mais uma vez, repudiar com veemência as violências de gênero que ocorrem dentro e fora do espaço escolar e afirmar nosso compromisso em construir um espaço educativo de acolhimento e segurança que enfrente com políticas claras as violências e desigualdades.
Recebemos a notícia com profunda indignação e dor do caso publicizado que envolve estudantes do Colégio Pedro II. Expressamos nossa total, irrestrita e inegociável solidariedade à jovem e a todas as meninas e mulheres que fazem parte de nossa comunidade.
Em pleno 2026, ainda estamos redigindo notas como esta porque a sociedade e a escola negligenciam as violências que sofremos cotidianamente. Não é falta de informação. Não é desconhecimento do que significa assédio, violência contra meninas e mulheres ou consentimento.
Estamos dentro de uma instituição que debate, ainda que pontualmente, gênero, direitos humanos e respeito. Portanto, o que está em jogo não é ignorância, mas a permanência de uma cultura machista de silêncio e de impunidade e a ausência de uma política institucional robusta, permanente e efetivamente implementada de prevenção e enfrentamento às violências de gênero.
A violência de gênero no ambiente escolar é naturalizada sistematicamente. Falas, gestos, microagressões são ouvidas e silenciadas pela total falta de ação política e pedagógica por parte da instituição. Incluir o debate de gênero estruturalmente na escola é fundamental para que toda a comunidade possa se comprometer em identificar e interromper essas violências.
Não basta anunciar os canais de denúncia, já que a violência de gênero inicia nas relações cotidianas e é nesse lugar que, como educadores e educadoras, devemos atuar. A reprodução de comportamentos machistas e violentos está em nossas salas de aula, corredores e na própria estrutura institucional. Essa cultura de violência contra meninas e mulheres culmina em eventos extremos, como a escalada de ódio, misoginia, estupros e feminicídios.
É importante afirmar que o Colégio Pedro II possui um Plano Setorial de Prevenção e Enfrentamento aos Assédios, às Discriminações, Racismo e Injúria Racial (PSPE-CPII). Construído coletivamente por um Grupo de Trabalho Institucional, também composto por servidoras do CPII que compõem o GT Mulheres do Sindscope, e aprovado pelo Conselho Superior (Consup) em setembro de 2025, órgão máximo deliberativo da instituição, que apresenta representação de toda comunidade escolar. Esse plano foi concebido justamente para prevenir, coibir e enfrentar situações de violência como esta, estabelecendo diretrizes, protocolos, ações formativas e mecanismos institucionais de acolhimento e responsabilização.
No entanto, esse plano, legitimamente aprovado pelo Consup, não foi publicado em sua íntegra pela Reitoria. Em seu lugar, foi editada a Portaria no 0400/2026, que instituiu um documento distinto daquele aprovado pelo órgão máximo da instituição. A própria Nota da Reitoria sobre isto reconhece que a Portaria publicada não contempla integralmente o plano aprovado pelo Consup, ao afirmar que as propostas aprovadas pelo Conselho deverão ser objeto de regulamentação futura.
A não implementação do PSPE-CPII representa um grave obstáculo à construção de uma política institucional efetiva de prevenção e enfrentamento às violências.
Não aceitaremos respostas protocolares, nem medidas paliativas. O que exigimos é uma política concreta, estruturada e contínua de prevenção e enfrentamento aos assédios e às violências, com formação obrigatória para estudantes, servidores e terceirizados; canais seguros e independentes de denúncia; protocolos claros de acolhimento; responsabilização efetiva dos agressores; e acompanhamento psicológico às vítimas. Sem isso, qualquer discurso institucional cairá no vazio.
Queremos segurança dentro e fora dos campi. Queremos circular sem medo. Queremos ser acolhidas, respeitadas e ouvidas e não invalidadas, desacreditadas, expostas ou silenciadas. Não aceitaremos que a vítima seja colocada sob suspeita, nem que a instituição se mova apenas sob pressão pública.
A prevenção não pode ser reativa; ela precisa ser estruturante.
Reafirmamos nosso apoio ao Grêmio Marcos Nonato da Fonseca, que expôs as lacunas institucionais ao compreender que acolhimento não é neutralidade e que respeito não se constrói com silêncio. Repudiar o assédio e a violência é dever coletivo.
Seguiremos vigilantes. Seguiremos organizadas. Seguiremos denunciando.
A prevenção é uma escolha institucional. A omissão também.
E nós não aceitaremos o silêncio!
Rio de Janeiro, 1 de março de 2026.
Grupo de Trabalho Mulheres – Sindscope
