Marcha das Mulheres Negras: do Rio a Brasília, contra o racismo e pelo direito de bem viver

Grupo de Negras e Negros do Sindscope participou da manifestação que percorreu a orla de Copacabana no domingo. GT convida servidoras e servidores do Colégio Pedro II a participar das atividades do grupo, que deve ir a Brasília na Marcha nacional e no Encontro do Sinasefe (Enniq), em novembro. 

IMPRENSA SINDSCOPE

Marcha em Copacabana – foto: Fernando Frazão/Ag. Brasil

“Racismo não é opinião, é crime”. A frase riscada num cartaz empunhado por uma militante, durante a 11ª edição da Marcha das Mulheres Negras do Rio, é emblemática de um tempo no qual preconceito e violência tentam com frequência se passar por liberdade de expressão.

Preparatória para a II Marcha Nacional das Mulheres Negras, que acontecerá em 25 de novembro próximo, em Brasília, a manifestação reuniu lideranças de favelas, quilombos, movimentos sociais, organizações políticas, coletivos autônomos e culturais. Segundo as organizadoras, o ato reuniu mulheres de 52 municípios do Estado do Rio.

Sob o tema “Mulheres negras rumo a Brasília: contra o racismo, por justiça e o bem-viver”, a passeata na orla de Copacabana, no dia 27 de julho de 2025, domingo, levou à Zona Sul do Rio de Janeiro pautas que, não obstante os avanços na ocupação de espaços e no combate ao racismo pelo povo preto, revelam-se cada vez mais urgentes e atuais.

No final de maio passado, a pesquisa “Experiência de Discriminação Cotidiana pela População Brasileira”, divulgada pelo Ministério da Igualdade Racial (MIR), em parceria com a Vital Strategies e a Umane, constatou que raça é o principal fator de discriminação no Brasil: 84 em cada 100 pessoas que se identificam como pretas e pretos já teriam se sentido discriminadas.

Discriminação expressada com todas as letras nos discursos e nas faixas, cartazes e adesivos levados à passeata, que saiu da Praça do Lido e caminhou até a Praça Almirante Júlio de Noronha, ao lado da Pedra do Leme. Como no doloroso grito de protesto levado à avenida Atlântica pelo grupo de mães que tiveram filhos mortos por agentes do Estado.

GT de Negras e Negros do Sindscope – foto Arquivo Pessoal

Em nome das mães

Mães que perderam filhos por violência de agente estatal – foto: Frazão/Ag. Brasil

Com faixas e cartazes, elas exigiam justiça para crimes cometidos em nome da lei. Lá estava Rafaela Mattos, que há cinco anos luta por justiça para o seu filho João Pedro Mattos, morto numa operação policial, em maio de 2020, na Favela do Salgueiro, em São Gonçalo (RJ). O menino estava na casa de parentes, quando a polícia, sem mandado, invadiu o imóvel e disparou vários tiros, depois alegando suposto confronto com traficantes.

O caso repercutiu nacionalmente e foi citado na (pouco cumprida) decisão do Supremo Tribunal Federal que, um mês depois, proibiu ações deste tipo das forças policiais em comunidades durante a pandemia.

Recentemente, a Justiça reformou uma decisão que havia inocentado os policiais envolvidos. Decidiu que eles vão passar por júri popular. Rafaela, uma das várias mães de filhos mortos nestas circunstâncias que foram juntas à Marcha em Copacabana, aguarda sem descanso pelo julgamento.

Tereza de Benguela

Marcha das Mulheres Negras foto: Fernando Frazão/Ag. Brasil

A manifestação ocorreu dois dias após uma data de forte simbolismo para as lutas dos movimentos de negras e negros: o Dia Internacional da Mulher Negra, Latino-Americana e Caribenha, celebrado em 25 de julho.

Data estabelecida pela ONU (Organização das Nações Unidas), no Brasil também incorpora homenagem a Tereza de Benguela. Conhecida como “Rainha Tereza”, foi uma liderança que viveu no século XVIII, no Vale do Guaporé (MT), onde participou da fundação do Quilombo de Quariterê. Perseguida, foi capturada por soldados e, em seguida, assassinada.

Familiares de Marielle, na Marcha  – foto: Fernando Frazão/Ag. Brasil

Marielle 

No mesmo dia da Marcha do Rio, faria aniversário a vereadora Marielle Franco, assassinada a tiros por milicianos em 2018. A irmã de Marielle, Anielle Franco, ministra da Igualdade Racial, participou do ato, acompanhada da mãe, Marinete da Silva, e da sobrinha Luyara Franco.

Filha de Marielle, ela disse que estar na Marcha das Mulheres Pretas é muito simbólico para a família. “Hoje a minha mãe estaria completando 46 anos de vida e boa parte dessa vida foi dedicada às lutas que nos unem”, disse.

Sindscope em Copa

O Sindscope foi representado pelas servidoras Ivanyr da Silva Alves e Cristina Valeria, do Grupo de Trabalho de Negras e Negros. “A Marcha é importante para incentivar as mulheres a lutar contra o racismo, a violência contra o gênero. Para a mulher perceber que tem o lugar dela, que não é só o homem que tem [direitos]”, reflete Ivanyr.

“A Marcha foi um encontro, um movimento onde Copacabana, um dos bairros da Zona Sul, teve que abrir um grande espaço para as mulheres negras marcharem em busca de uma reparação histórica, em busca de um bem viver e autocuidado”, disse Cristina Valéria.

Ela lembra que a Marcha das Mulheres Negras em Brasília, em novembro, já está sendo pautada no Grupo de Trabalho de Negras e Negros do Sindscope. Está inserida na participação em outro evento: o 3º Encontro de Negras, Negros, Indígenas e Quilombolas do Sinasefe (Enniq), que acontecerá de 24 a 28 de novembro, também em Brasília.

O GT do Sindscope reforça o convite para que servidoras e servidores do Colégio Pedro II abracem essas lutas, participem das reuniões e outras atividades do grupo e ajudem a construir o envolvimento da categoria com essas duas importantes atividades do movimento antirracista.

Cristina e Ivanyr, do GT do Sindscope, com a escritora Conceição Evaristo
foto: Arquivo Pessoal
Manifestação na Av. Atlântica, no domingo
foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Mulheres negras em Copa – foto Fernando Frazão/Ag. Brasil
Referência à Tereza de Benguela – foto: Fernando Frazão/Ag. Brasil
Ato em Copa – foto: Fernando Frazão/Ag. Brasil

IMPRENSA SINDSCOPE
Por Hélcio Lourenço Filho
(Com dados da Agência Brasil)

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